Tucuruí, 22 de Fevereiro de 2012

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Barcarena tem US$ 5 bi em investimentos, mas não tem esgoto
Cidade do Pará é berço do maior polo de industrialização mineral do País


Localizada a uma hora da capital Belém, na Baía do Guajará, Barcarena tem 99 mil habitantes, 12.463 veículos, 942 empresas e um único prédio residencial, em construção. Menos de 30% dos domicílios são abastecidos por rede de água e, em 88% deles, o esgoto não é tratado. O principal meio de locomoção ainda é a bicicleta - ou a balsa, para longas distâncias. No quesito investimentos, no entanto, Barcarena tem números de cidade grande. 

Distrito industrial divide cidade No primeiro semestre deste ano, a cidade paraense desbancou capitais do Sudeste e se tornou o principal destino do investimento estrangeiro no Brasil. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), o município recebeu US$ 5,69 bilhões no período, ou 13% de todo capital externo que entrou no País. A explicação está no polo industrial da cidade, cuja principal vocação é a industrialização da alumina e transformação do produto em alumínio primário. 

Criado na década de 80, com a construção da Albrás (na época da Vale do Rio Doce), o local tem sete companhias de grande porte e uma série de prestadores de serviço, como empresas de montagens e de manutenção. Juntas, são responsáveis por 6 mil empregos diretos e outros 18 mil indiretos, destaca o presidente da Associação de Empresas de Mineração e Metalurgia de Barcarena (Assemb), Marco Antônio Pinto. 

Ele conta que o polo continua atraindo grandes investimentos. Em 2007, a Votorantim decidiu se instalar no local. Nos próximos dois meses, a Mineradora Buritirama deve inaugurar uma nova unidade de beneficiamento de manganês. Mas o empreendimento de maior envergadura é a Companhia de Alumina do Pará (CAP), um projeto que até bem pouco tempo pertencia a Vale e que foi transferido para a multinacional norueguesa Norsk Hydro. 

As obras para a primeira fase do empreendimento, de R$ 5 bilhões, já foram iniciadas e devem ficar prontas em julho de 2015. Serão duas linhas de produção com capacidade para 1,86 milhão de toneladas de alumina por ano, afirma o gerente de construção da CAP, Paulo Sérgio de Almeida. Se houver demanda, o projeto será ampliado para oito linhas.

No pico da obra, o empreendimento vai criar 9 mil empregos diretos e indiretos. Almeida garante que a prioridade será dada aos moradores de Barcarena, mesmo que a empresa tenha de qualificar a mão de obra. Mas, segundo o executivo, há pessoas ociosas na cidade que podem ser aproveitadas na construção. Muitas delas desembarcaram na região para levantar outras expansões de empresas e acabaram ficando por lá. 

O atrativo do polo é a verticalização. A Alunorte, da Norsk Hydro, transforma a bauxita em alumina; a Albrás, do mesmo grupo, usa a alumina para fazer alumínio; e a Alubar, de capital argentino, usa a matéria-prima para produzir cabos de energia elétrica. Além disso, as empresas contam com um terminal portuário. Trata-se do Porto de Vila do Conde, que está sendo ampliado para atender à demanda do Estado. Hoje, as instalações respondem por 70% das cargas do Pará exportadas.

Há planos para a construção de um novo terminal de múltiplo uso, de R$ 800 milhões; um terminal de carvão mineral, de R$ 400 milhões; e um terminal de placas de bobinas de aço, de R$ 175 milhões. Enquanto esses planos não saem do papel, os projetos de ampliação da Santos Brasil estão em ritmo acelerado. Os investimentos vão ampliar em 30 mil metros quadrados (para 130 mil m²) a área do Tecon Vila do Conde e elevar a capacidade para movimentação de contêiner e carga de projetos (grandes máquinas). A companhia tem hoje 170 pessoas empregadas e pode aumentar em 30% o quadro de funcionários, afirma o diretor executivo do Tecon, André Quirino.

Parte esquecida. Por causa do polo, Barcarena se transformou na terceira maior arrecadação do Estado. Mas, por enquanto, a gestão pública não tem feito muito pela população local, que sofre com a falta de infraestrutura. O saneamento básico é quase inexistente na cidade. Na falta de rede de esgoto, boa parte da população se vira com fossas rudimentares nas residências. A minoria tem fossa séptica. 

Outra peculiaridade do município é a grande quantidade de terra de propriedade da União. "Aqui quase tudo era da Codebar (Companhia de Desenvolvimento de Barcarena), que foi dissolvida pelo governo federal", conta a empresária Graciete Fernandes, dona da casa de construção Manancial. Segundo ela, qualquer empresa que queira se instalar na cidade, fora do polo industrial, tem dificuldade para conseguir área.

"Ninguém consegue comprar. Quem tem alguma área regularizada cobra caro." Por outro lado, reclama Graciete, não há controle das áreas, que acabam sendo invadidas. Nos últimos cinco anos, foram 44 invasões. Muita gente chega na região em busca de emprego e nem sempre consegue. Frustrados, acabam improvisando moradias de madeira, que com o tempo se tornam residência fixa.

Renée Pereira 

Distrito industrial divide cidade

Em uma fica a prefeitura e o circo; na outra, as empresas, o porto e Cabanos

A criação do distrito industrial deu origem a duas Barcarenas. De um lado do rio, fica a sede do município, a prefeitura e o circo. Do outro lado, ficam as grandes indústrias, o porto e a Vila dos Cabanos, um bairro planejado construído na década de 80 para os funcionários da Vale. Ali, as ruas são amplas, arborizadas e movimentadas - cobiça de quem mora do outro lado.

No município-sede, a economia local gira em torno da agricultura familiar, do funcionalismo público e de pequenos comerciantes, que não mudam por nada antigos hábitos da cidade. A exemplo do que ocorre na Espanha, Barcarena também tem a siesta. De segunda-feira a sexta-feira, quando o sino da igreja bate meio-dia é hora de baixar as portas do comércio e ir para casa almoçar e descansar. Até às 15 horas, nenhuma compra pode ser feita.

O movimento das ruas, já pequeno, cai drasticamente. Apenas alguns poucos moradores se arriscam no calor escaldante, acima dos 35 graus. "O comércio do lado de cá está vivendo seu pior momento", afirma Benedito da Barra, dono de uma loja de roupas e diretor da Câmara de Dirigentes Lojistas de Barcarena (CDL).

Ele conta que o comércio local não tem conseguido competir com os concorrentes de Belém e da Vila dos Cabanos. Para o fim do ano, Barra vai tentar convencer os comerciantes locais da necessidade de tomar medidas para atrair os consumidores. Uma delas será abrir aos domingos.

Há alguns quilômetros dali, a vida é um pouco mais agitada, mesmo entre meio-dia e às 15 horas. Na Vila dos Cabanos, o comércio já divide espaço com grandes estabelecimentos. O primeiro grande supermercado que chegou à cidade foi o Y.Yamada, uma das redes mais tradicionais do Pará. Mas, em breve, terá concorrente. O Grupo Líder está levantando uma nova unidade a poucas quadras dali.

Nos últimos anos, a vila conseguiu atrair todos os serviços que a vida moderna necessita. Lojas de celulares, cursos de inglês e computação, redes varejistas e lojas de locação de carros se instalaram na Vila dos Cabanos.

Mas, para os moradores, o símbolo do desenvolvimento é a construção do primeiro edifício da cidade. O Residencial Mirante do Rio será inaugurado nos próximos meses e quase todos os apartamentos estão vendidos. Cada um custa cerca de R$ 200 mil e tem 100 metros quadrados, com dois ou três dormitórios. A próxima conquista da Vila dos Cabanos é levar uma universidade para o local, de preferência uma federal.

As diferenças estruturais entre a vila, que cresce ao redor do polo industrial, e a sede de Barcarena confundem até mesmo os moradores. Para muitos, Vila dos Cabanos é um município emancipado. "Aqui é a cidade Vila dos Cabanos e lá é Barcarena", diz uma moradora convicta de que se trata de duas cidades diferentes. Ela só se atrapalha quando perguntam onde fica a prefeitura: "Fica do outro lado".

O secretário-adjunto de planejamento da cidade, Wandick Gutierrez Filho, confirma as disparidades entre os dois locais. "Os maiores investimentos e a melhor infraestrutura estão do outro lado. Quem mora aqui quer ir pra lá."

Fonte: agorapress.com.br.

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