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Em todas as etapas da pandemia no Brasil, fake news desmobilizavam esforços

Por ORM
Publicado em 31 de maio de 2020 às 17:45H

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Man is holding smartphone and reading fake news on internet. Propaganda, disinformation and hoax concept.

Ao menos 110 milhões de brasileiros foram afetados pelas fake news. É mais que a metade da população nacional recebendo e repassando informação falsa, principalmente, pelas redes sociais WhatsApp e Facebook, segundo a pesquisa da Avaaz.

Pela pesquisa, 80% dos entrevistados disseram que gostariam de receber informações corrigidas por verificadores de fatos, quando fossem expostos a fake news. Entre os que usam o Facebook como a principal fonte de informação sobre a pandemia, esse número chega a 83%. Apesar de esforços recentes, anunciados pelas redes sociais, para combater a desinformação sobre o coronavírus, a pesquisa mostra que 57% dos internautas brasileiros não viu nenhuma correção ou mensagem de alerta sobre conteúdo falso ou enganoso no Facebook. Apenas 34% dos entrevistados afirmou ter visto tais correções.

Num histórico das fake news sobre a pandemia, repassadas no Brasil, primeiro se dizia que o coronavírus não sobreviveria ao calor dos países tropicais. E agora, a América do Sul, como aponta a OMS, é o novo epicentro da covid-19, sendo o Brasil o país mais afetado. Quando a doença se instalou, o presidente chamou a doença de “gripezinha”. A doença colapsou os sistemas público e privado de saúde, matou mais de 26 mil pessoas e contaminou mais de 440 mil, sem contar com a subnotificação de casos, como registra o Ministério da Saúde.

Quando a doença já estava em circulação plena, surgiu todo tipo de receita milagrosa que prometia acabar com o vírus. Tudo sem comprovação científica. Limão com bicarbonato, chá de alho com cebola e limão, gargarejo com água quente e até fumar. Quando as medidas de distanciamento social temporário tiveram de ser adotadas, para conter a circulação do coronavírus e reduzir o número de casos, todo dia surgia uma vacina ou tratamento, para desmobilizar os esforços de quem estava ficando em casa e forçar os governos estaduais e prefeituras a afrouxarem as restrições de circulação. Com o número de casos crescendo, as medidas foram sendo cada vez mais ampliadas e se tornando mais rigorosas.

Outros assuntos, que não exatamente a pandemia, mas relacionados à doença, acabaram virando material de fake news. Muitos se aproveitando da vulnerabilidade econômica da população. Isso inclui o recorrente “auxílio gás”; diversos links falsos com aplicativos para acessar o benefício de auxílio emergencial, do Governo Federal; remuneração por denúncias de descumprimento às regras de lockdown; multas de trânsito…

Fake news levam a falsa sensação de segurança e podem criar novas ondas de contaminação

“Mais preocupante ainda é que 110 milhões de brasileiros acreditam em ao menos uma notícia falsa, que afeta as decisões que as pessoas tomam para se proteger. Isso pode levar cada indivíduo a contagiar centenas de pessoas com o coronavírus, anulando os esforços de médicos e do poder público”, analisa Laura Moraes, coordenadora de campanhas da Avaaz.

Por enquanto, a informação falsa que segue circulando, pois conta com a total sustentação do próprio presidente, é que o tratamento com cloroquina e/ou hidroxicloroquina, associadas a antibióticos, antiparasitários, corticoides e anticoagulantes, cura o vírus. Quem fabrica e compartilha fake news que apontam esse protocolo como ideal para curar a covid-19, esquece que o tratamento é experimental e sem eficácia comprovada. Ou que pacientes que recebem a receita com essa prescrição, precisam aceitar um termo de responsabilidade.

No dia 22 de maio, o maior estudo já feito sobre cloroquina e hidroxicloroquina, publicado na revista médica inglesa “The Lancet” — uma das publicações científicas mais respeitadas da Medicina global — concluiu: esses remédios apenas aumentaram o número de mortes em pacientes com covid-19. Já há fake news tentando desvirtuar esses estudos e voltar a defender os medicamentos.

“O ruim é que os criminosos que criam as notícias falsas, as fake news, se aproveitam desse momento de fragilidade para praticar golpes virtuais ou distorcer a nossa solidariedade. Tudo isso chega pra gente através dos e-mails ou das redes sociais de pessoas em quem a gente confia. Parece uma forma de ajudar, mas não é. Então é preciso a gente confirmar antes de repassar qualquer informação. Eu sempre friso que desinformação mata. A pessoa se sente segura tomando um chá, que foi indicado, e isso pode levar a um comportamento que pode disseminar ainda mais o vírus”, critica Ivana Oliveira, professora doutora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Linguagens da Unama.

Fake news colocam sociedade contra o bom senso e a ciência

Karine Faine, professora mestre do curso de Enfermagem da Unama e especialista em Educação na Saúde para Preceptores do SUS, ressalta um outro risco das fake news: descredibilização da ciência, de pesquisadores, do conhecimento científico e do bom senso. Quem costuma repassar fake news, dificilmente tem conhecimento técnico e científico sobre determinado assunto. Mas se agarra tanto ao valor que aquela informação falsa tem para si, que duvida de profissionais da área. Durante a crise da pandemia de covid-19, muitas pessoas, sem qualquer conhecimento em Medicina, se puseram a questionar médicos e cientistas.

“É notório que as fake news fazem parte do nosso cotidiano e recebemos uma grande quantidade delas. No início da pandemia, vimos mais a respeito da prevenção do vírus. Quem nunca recebeu um vídeo sobre água quente ou limão pra prevenir? Ou uso indiscriminado de vitaminas, até injetáveis, que podem causar danos irreversíveis aos pacientes? Em todos esses eventos, nada comprovado cientificamente. As medidas orientadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) são lavagem das mãos, não compartilhamento de objetos, uso de máscaras e, sobretudo, isolamento social, que é amplamente divulgado”, observa Karine.

A professora destaca que, agora, há aumento perceptível da divulgação de informações falsas sobre tratamentos duvidosos e sem comprovação científica. “Primeiro tivemos uma descredibilização do vírus, como se fosse ‘gripezinha’ e hoje, pela doença ter se estabelecido e aumentado o número de mortos e infectados, houve aumento de receitas prontas, medicamentos e que podem gerar consequências graves. E a maioria desses fármacos pode ser até mesmo fatal”, alerta.

Como profissional da área da saúde, a professora reforça posicionamentos da OMS: ainda não há cura, tratamento comprovadamente mais eficiente ou vacina contra o coronavírus sars-cov-2, que provoca a covid-19. Ela lembra que o vírus é novo, as pesquisas estão em andamento e quase tudo está em etapas ainda muito iniciais. Mesmo assim, as fake news sempre apontam um tratamento milagroso.

“A maior parte da população busca informação em meios que mais tem acesso, como aplicativos de mensagens rápidas. E ainda temos uma questão peculiar. Muito mais fácil eu confiar em alguém com quem tenho contato afetivo, como o grupo da família. A gente acaba confiando que o amigo ou familiar vai passar informação com credibilidade. Mas se receber essas informações sem fontes oficiais, não repasse. Quebre a cadeia dessas fake news para não atrapalhar o curso das iniciativas de prevenção oficias”, conclui Karine.

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