Perfil dos usuários mostra falta de planejamento financeiro.

No Pará, 82,9% da população economicamente ativa que tem acesso ao cartão de crédito está endividada nesta modalidade de pagamento. Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) mais recente, a relativa ao primeiro semestre deste ano. Além disso, segundo estudos feitos pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), veiculadas no mês de outubro, 33% dos consumidores do Brasil não sabem o valor da fatura do mês anterior, o que revela a ausência de planejamento financeiro de parte da população do país. O uso não controlado do cartão pode trazer muitos problemas aos consumidores.

Segundo o economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia do Pará (Corecon-PA), Marcus Holanda, o descontrole das finanças causa problemas de humor, estresse nas famílias, além de levar a pessoa endividada a ter seu nome “sujo” no SPC, sendo impedida de efetuar compras via crédito. Por isso, para Holanda, é aconselhável que os cidadãos sigam algumas recomendações. “Não é recomendável, por exemplo, que a pessoa tenha mais de um cartão de crédito. Isso é um grande problema. Quando há o cartão da loja de varejo, o cartão da conta-salário, e assim por diante, é grande o risco de que a pessoa nem saiba mesmo quanto foi a última fatura de cada um deles”, explica o conselheiro.

O presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin), Reinaldo Domingos, afirma que o uso do cartão de crédito pode potencializar os hábitos errados já consolidados de um consumidor em relação à utilização do dinheiro. Ainda que os juros nesse tipo de compra sejam os mais altos do mercado atualmente, chegando até a 200% ao ano, segundo o presidente, ele defende, assim como Holanda, ser necessário desenvolver práticas de precaução e disciplina para não cair nas “tentações” do mercado.”Devemos nos educar financeiramente para não cair nessas armadilhas e combater as verdadeiras causas desse problema na raiz e não pontualmente. Há muitas fontes de informação que ensinam, de maneira comportamental, conceitos fundamentais para termos mais sustentabilidade financeira”, afirma Domingos.

Um ponto fundamental, demarcado pelos dois entrevistados, é o teto de comprometimento da renda mensal em dívidas, que deve ser, no máximo, de 30%. “Isso deve ser seguido mesmo que a pessoa tenha um limite alto no cartão de crédito, pois facilita o controle e os pagamentos”, diz Holanda. Dessa maneira, o consumidor não compromete os gastos fixos de sua renda. Já utilizar o crédito rotativo, que é o empréstimo feito por meio do pagamento mínimo da fatura do cartão, não é recomendado em nenhuma hipótese. “Nunca pague a parcela mínima da fatura, pois isso leva à inadimplência e os juros são extremamente altos. Se não conseguir pagar o valor total, procure outra linha de crédito que não ultrapasse 2,5% ao mês”, aconselha Domingos.

Caso o usuário do cartão já tenha chegado em uma situação difícil de administrar, o indicado é que tome conhecimento do valor total devido, para que o momento da negociação da dívida seja encarado com todas as informações atualizadas em mãos. É o que conclui o presidente da Abefin. “Caso perca o controle financeiro e não consiga pagar a fatura total do cartão no vencimento é preciso fazer, imediatamente, um diagnóstico financeiro e descobrir o verdadeiro problema. Junto com isso, deverá buscar uma linha de crédito com taxas de juros mais baixos”, finaliza.