Apenas 30 pessoas fazem uso da Profilaxia Pré-Exposição ao Risco à Infecção pelo HIV.
Em 21 de junho deste ano, o Ministério da Saúde (MS) lançou no Pará mais uma estratégia de prevenção combinada às pessoas com maior risco de exposição ao vírus HIV: a Profilaxia Pré-Exposição ao Risco à Infecção pelo HIV (PreP). Todavia, dos 400 usuários que podem se beneficiar com a medicação, apenas 30 usufruem do serviço no Estado. O grupo prioritário indicado pelo Ministério são pessoas trans, gays e outros homens que fazem sexo com homens, trabalhadores/as do sexo e casais sorodiscordantes.

Deborah Crespo, coordenadora estadual de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) da Secretaria de Estado de Saúde (Sespa), informa que nove mil pessoas recebem remédio antirretroviral (no tratamento da Aids) e era de se esperar que os parceiros desses pacientes atuassem de forma preventiva com a PreP. Além disso, a expectativa da coordenação era que houvesse maior pela procura da PreP já que somente no Ambulatório Transexualizador, na Unidade de Referência Especializada em Doenças Infecciosas e Parasitárias Especiais (URE-Dipe), há o acompanhamento 200 pessoas trans recebendo hormônio, das quais oito são HIV positivo, e as demais sofrem riscos de se infectar.

“No entanto, embora estejam no mesmo serviço com equipe multidisciplinar ofertando e sensibilizando sobre o medicamento, as pessoas trans acompanhadas não se convencem de fazer o uso preventivo do retroviral. Hoje estatísticas mostram que 40% da população trans no Brasil está se infectando com o vírius HIV e isso nos preocupa”, frisou Crespo.

O medicamento foi lançado no Brasil no início de dezembro de 2016 e desde junho deste ano, o tratamento está disponível na URE-Dipe, no bairro do Telégrafo, instituição do Estado. E, recentemente, passou a ser ofertado também na Casa Dia, no bairro da Sacramenta, que pertence ao Município de Belém.

“Recebemos do Ministério o medicamento equivalente para 400 pessoas e agora que estamos chegando em todo o Pará em 30 tratamentos. Quando houve o lançamento da medicação realizamos evento, chamamos o movimento social e fizemos ampla divulgação, mas a procura é muito aquém do que é ofertado, e buscamos divulgar os serviços. Isso ocorre em todo o Brasil e ainda não sabemos exata qual é a razão, a barreira para isso”, afirmou Crespo.

A trans Bárbara Pastana, que é membro dos Grupos Homossexual do Pará e de Resistência dos Travestis e Transexuais, enfatizou que esteve recentemente em um encontro nacional e destacou que uma das reivindicações da população trans esteve relacionada à falta de maiores esclarecimentos e informações sobre a PreP.

“Estivemos no Encontro de Direitos Humanos e o SUS, em Campo Grande (MS), no qual discutiu sobre a Pep e PreP, e uma das nossas reivindicações foi de que ambas as medicações ainda são desconhecidas da sociedade. As pessoas não sabem que têm o direito do uso nem não sabem onde buscar, porque ainda falta mais esse debate na sociedade. O Ministério da Saúde e as Secretarias de Estado, em parceria com os movimentos e a mídia são fundamentais para ajudar nessa discussão e a dar mais publicidade para essas novas políticas”, disse a trans.

Ainda segundo Bárbara Pastana, o movimento defende o uso desses medicamentos e realiza ações levando informações, mas ainda esbarra em algumas dificuldades. “Buscamos estar engajadas e levar com que a população trans faça o uso da PreP, porque é muito melhor fazer a medicação hoje do que ter o vírus amanhã, e que também não deixe de usar preservativo. Levamos para a juventude palestras sobre o uso correto dessas medicações, em especial a PreP, porque nem todo trans, soropositivo e LGBT pode usar a medicação, porque depende da saúde. Precisamos também de material de divulgação e esse é papel do Estado. Outra limitação é porque não temos especialista atuando om a gente e muitas escolas não abrem as portas”, lamentou.

DISPONIBILIDADE

O Brasil é um dos pouquíssimos países do mundo em que a medicação é 100% gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para esses grupos. Ainda no País a PreP é o primeiro antirretroviral, o Truvada, que o MS liberou para a venda pela internet e custa em média R$ 200,00 ao mês. Os demais medicamentos para o HIV são restritos ao SUS e também distribuídos gratuitamente aos pacientes.

Crespo destacou que o Ministério e a Sespa não veem a PreP como “salvadores da Pátria”, mas como uma única solução ao vírus, no entanto, com ação combinada com outras formas de se evitar o HIV. “A profilaxia não é um tratamento, porque é utilizada para uso de pessoas saudáveis para evitar o HIV e deve estar aliada às imunizações, aos preservativos, aos géis lubrificantes, às testagens rápidas e outros. Então, é para quem não tem HIV e quem faz a medicação precisa fazer teste HIV a cada três meses para ver se a pessoa não soroconverteu, ou seja, se ela passou a viver com o HIV. Se ela estiver positivada, terá que interromper a PreP e começar o tratamento ao vírus”, esclareceu.

Além da URE Dipe e Casa Dia, em Belém, Deborah Crespo informou que a medicação já está disponível em todos os 25 serviços que assistem os pacientes com HIV/Aids no Pará. “Os serviços fazem os exames laboratoriais e, se tudo transcorrer bem, cadastra o usuário no Sistema de Logística de Medicação, que é online, e a gente envia a medicação todo mês, sendo um comprimido ao dia tendo dois compostos. Já ofertamos a rede de serviços e precisamos com que a população tome conhecimento e busque a medicação. De fato, precisamos de campanha mais ampla e a mídia nos ajuda muito com isso”, afirmou Crespo.

DADOS

Segundo a Sespa, em 2018, entre os meses de janeiro e julho, 697 adultos e 06 crianças foram diagnosticados com o vírus HIV no Pará e já estão em tratamento. Ainda nos primeiros sete meses deste ano, 307 adultos e 04 crianças desenvolveram os sintomas da Aids. No decorrer do ano passado, 1.797 adultos e 15 crianças foram diagnosticados com o vírus HIV no Pará e iniciaram tratamento pelo SUS no Pará. No mesmo período, outros 798 adultos e 14 crianças manifestaram os sintomas da Aids, composta por um quadro de enfermidades ocasionadas pela perda das células de defesa em decorrência da infecção pelo vírus HIV.